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O maior equívoco da composição corporal: quando massa livre de gordura deixou de significar massa livre de gordura.

Durante décadas, milhares de artigos científicos publicaram frases semelhantes a estas:

“O treinamento aumentou a massa muscular em 2,5 kg.”

Ou ainda:

“O suplemento promoveu ganho de massa muscular.”

À primeira vista, essas conclusões parecem perfeitamente plausíveis.

O problema é que, em grande parte desses estudos, a massa muscular nunca foi medida.

O que realmente foi medido foi outro compartimento corporal:

Massa Livre de Gordura (Fat-Free Mass – FFM).

Essa diferença pode parecer apenas uma questão de terminologia.

Na realidade, ela representa um dos maiores erros conceituais da literatura em Ciências do Movimento Humano.

O nascimento da FFM

Os primeiros modelos de composição corporal dividiam o organismo em apenas dois compartimentos:

  • gordura corporal;
  • tudo aquilo que não é gordura.

Nascia o famoso modelo bicompartimental.

Assim surgiu a FFM.

Matematicamente:

FFM = Massa Corporal Total − Massa Gorda

Observe um detalhe importante.

A definição da FFM é negativa.

Ela não descreve um tecido.

Ela apenas representa tudo aquilo que sobra após retirar a gordura corporal.

Ou seja,

FFM nunca foi sinônimo de músculo.

O que realmente compõe a FFM?

A massa livre de gordura inclui praticamente todos os tecidos não adiposos do organismo.

Entre eles:

  • músculo esquelético;
  • músculo cardíaco;
  • fígado;
  • rins;
  • pulmões;
  • cérebro;
  • pele;
  • sangue;
  • tecido conjuntivo;
  • cartilagem;
  • água corporal total;
  • glicogênio;
  • minerais ósseos.

Portanto, quando um exame informa:

FFM = 65 kg

ele está dizendo apenas que existem 65 kg de tecidos não adiposos.

Ele não informa quanto disso corresponde a músculo esquelético.

Como surgiu a confusão?

A principal razão foi tecnológica.

Durante muitos anos os métodos disponíveis eram limitados.

Pesagem hidrostática.

Pregas cutâneas.

Bioimpedância.

DEXA.

Todos esses métodos estimavam gordura corporal relativamente bem.

Entretanto, nenhum deles foi originalmente desenvolvido para medir diretamente massa muscular.

Mesmo assim, como indivíduos treinados frequentemente apresentavam aumento simultâneo de FFM e músculo, a comunidade científica passou a utilizar os termos como se fossem equivalentes.

A simplificação parecia conveniente.

Mas era fisiologicamente incorreta.

Um exemplo simples

Imagine dois indivíduos.

Indivíduo A

Após doze semanas de treinamento:

+2 kg de FFM.

Indivíduo B

Após doze semanas:

+2 kg de FFM.

Poderíamos concluir que ambos ganharam exatamente a mesma quantidade de músculo?

Não.

Porque parte desse aumento pode corresponder a:

  • água;
  • glicogênio;
  • expansão do volume plasmático;
  • aumento do conteúdo mineral;
  • alterações nos órgãos;
  • tecido conjuntivo.

Sem medir especificamente músculo esquelético, essa conclusão simplesmente não pode ser feita.

O papel da água

Este talvez seja o aspecto mais negligenciado.

Cada grama de glicogênio muscular armazena aproximadamente:

3 a 4 gramas de água.

Um atleta que aumenta seu estoque de glicogênio após treinamento ou após maior ingestão de carboidratos pode apresentar aumento importante da FFM sem qualquer hipertrofia estrutural.

O equipamento não está errado.

Quem erra é o pesquisador quando escreve:

“Houve aumento de massa muscular.”

Na verdade, houve aumento da FFM.

São afirmações diferentes.

O caso da testosterona

Um excelente exemplo aparece justamente no famoso estudo de Bhasin (1996).

O artigo demonstrou aumento significativo da:

Fat-Free Mass.

Em nenhum momento afirmou que todo esse aumento correspondia exclusivamente a proteína contrátil.

Entretanto, durante décadas milhares de profissionais passaram a afirmar:

“O estudo mostrou ganho de 3 kg de músculo.”

Isso nunca foi demonstrado.

A testosterona aumenta:

  • glicogênio;
  • retenção hídrica intracelular;
  • água corporal.

Portanto, parte da FFM observada provavelmente não correspondia exclusivamente ao crescimento do músculo esquelético.

Nem mesmo o DEXA mede músculo

Esse talvez seja o ponto que mais surpreende pesquisadores.

Muitos acreditam que o DEXA mede massa muscular.

Na realidade, o DEXA estima:

Lean Soft Tissue (LST).

A LST inclui:

  • músculo;
  • água;
  • pele;
  • vasos;
  • tecido conjuntivo.

Mesmo o DEXA não consegue separar perfeitamente músculo esquelético dos demais tecidos moles.

Por isso, o próprio consenso da área recomenda cautela ao utilizar LST como sinônimo de músculo.

O avanço dos modelos multicompartimentais

Com o desenvolvimento da ressonância magnética e da tomografia computadorizada, tornou-se possível medir diretamente:

  • volume muscular;
  • área de secção transversal;
  • massa muscular esquelética.

Esses métodos mostraram que alterações na FFM nem sempre acompanham alterações proporcionais no músculo.

Em alguns estudos, a FFM praticamente não mudou.

Entretanto, houve hipertrofia significativa.

Em outros, a FFM aumentou muito, mas parte importante desse aumento correspondia apenas à expansão dos fluidos corporais.

O problema metodológico

O erro da literatura pode ser resumido em uma única frase.

Os pesquisadores mediram corretamente a FFM.

Depois interpretaram como se tivessem medido músculo.

Esse tipo de erro recebe o nome de:

erro de validade de construto.

A variável observada não representa exatamente o fenômeno que o pesquisador pretende explicar.

O que aprendemos?

Hoje existe consenso de que:

  • FFM é um compartimento corporal.
  • Massa muscular é um tecido específico.
  • Lean Mass também não representa obrigatoriamente músculo.
  • Alterações na FFM não podem ser automaticamente interpretadas como hipertrofia muscular.

Sempre que um artigo afirmar:

“O treinamento aumentou massa muscular”

a primeira pergunta deveria ser:

Como a massa muscular foi medida?

Se a resposta for:

  • bioimpedância;
  • DEXA;
  • pesagem hidrostática;
  • modelo bicompartimental;

na maioria das vezes a variável realmente mensurada foi FFM ou Lean Soft Tissue, e não músculo esquelético.

Essa distinção, aparentemente simples, muda completamente a interpretação dos resultados e evita um dos erros conceituais mais frequentes da literatura contemporânea.

A grande lição científica

A história da FFM ensina uma das lições mais importantes da metodologia científica:

Medir corretamente uma variável não autoriza o pesquisador a chamá-la por outro nome.

Esse princípio parece trivial.

Entretanto, milhares de artigos publicados nas últimas décadas confundiram:

  • FFM com músculo;
  • Lean Mass com músculo esquelético;
  • LST com hipertrofia.

A ciência evolui justamente quando passa a reconhecer essas diferenças conceituais.

À medida que técnicas como ressonância magnética, tomografia computadorizada, ultrassonografia muscular e métodos de imagem quantitativa se tornaram mais acessíveis, ficou evidente que a hipertrofia é um fenômeno específico do tecido muscular e não pode ser inferida automaticamente a partir de compartimentos corporais mais amplos.

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Att. Dr. Andre Lopes

PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS

@dr.andrelopes no Instagram

Referências

Wang Z, Pierson RN Jr, Heymsfield SB. The five-level model: a new approach to organizing body-composition research. American Journal of Clinical Nutrition. 1992;56:19–28.

Heymsfield SB, et al. Human Body Composition. 2nd ed. Human Kinetics; 2005.

Heymsfield SB, Peterson CM, Thomas DM, Heo M, Schuna JM Jr. Why are there race/ethnic differences in adult body mass index–adiposity relationships? Obesity Reviews. 2016.

Nana A, Slater GJ, Stewart AD, Burke LM. Methodology review: using dual-energy X-ray absorptiometry (DXA) for the assessment of body composition in athletes and active people. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism. 2015;25:198–215.

Bhasin S, Storer TW, Berman N, et al. The Effects of Supraphysiologic Doses of Testosterone on Muscle Size and Strength in Normal Men. New England Journal of Medicine. 1996;335:1–7.

Na minha avaliação, este é um dos temas mais relevantes para a pesquisa em composição corporal atualmente, pois obriga a comunidade científica a distinguir claramente o que foi medido do que está sendo inferido, fortalecendo a precisão conceitual e a interpretação dos resultados em estudos sobre treinamento, nutrição e hipertrofia

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