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O estudo que revolucionou a endocrinologia do exercício

Em julho de 1996, o New England Journal of Medicine (NEJM) publicou um artigo que mudaria para sempre a fisiologia do exercício.

Bhasin S, Storer TW, Berman N, et al.

The Effects of Supraphysiologic Doses of Testosterone on Muscle Size and Strength in Normal Men.

Até aquele momento existiam inúmeras opiniões sobre esteroides anabolizantes.

Alguns defendiam que eram extremamente eficazes.

Outros afirmavam que praticamente todo o efeito observado era consequência do treinamento intenso.

A verdade é que praticamente não existiam ensaios clínicos controlados.

Bhasin decidiu responder essa pergunta.

De maneira extremamente rigorosa.

Um desenho experimental brilhante

Foram recrutados homens jovens saudáveis.

Todos apresentavam concentrações normais de testosterona.

Os participantes foram randomizados em quatro grupos.

Grupo 1

Sem treinamento

Sem testosterona.

Grupo 2

Treinamento de força

Sem testosterona.

Grupo 3

Sem treinamento

600 mg de enantato de testosterona por semana.

Grupo 4

Treinamento

600 mg de testosterona por semana.

O acompanhamento ocorreu durante 10 semanas.

Poucos estudos daquela época apresentavam um delineamento experimental tão elegante.

O resultado chocou o mundo

Os resultados foram impressionantes.

O grupo que recebeu testosterona sem treinar ganhou aproximadamente 3 kg de massa livre de gordura.

O grupo que treinou sem testosterona ganhou cerca de 2 kg.

Ou seja,

os indivíduos que não treinaram, mas utilizaram testosterona, apresentaram maior aumento de massa livre de gordura do que aqueles que treinaram naturalmente.

O grupo que combinou treinamento e testosterona apresentou os maiores ganhos de força e massa muscular.

A repercussão foi imediata.

O problema começou exatamente aqui

Logo após a publicação começaram a surgir interpretações extremamente simplificadas.

As manchetes passaram a dizer:

“Testosterona funciona mais que treino.”

Depois vieram outras.

“Treinar é menos importante do que utilizar testosterona.”

Mais tarde:

“Hormônio é responsável por praticamente toda hipertrofia.”

Nenhuma dessas afirmações aparece no artigo.

O detalhe que quase ninguém lia

O estudo utilizou:

600 mg de enantato de testosterona por semana.

Esse detalhe muda completamente a interpretação.

O que significa 600 mg?

Um homem saudável normalmente produz entre:

4 e 7 mg de testosterona por dia.

Isso representa aproximadamente:

30–50 mg por semana de produção endógena.

O estudo utilizou:

600 mg semanais.

Ou seja,

aproximadamente 12 a 20 vezes a produção fisiológica.

Não estamos falando de reposição hormonal.

Estamos falando de doses suprafisiológicas, deliberadamente escolhidas para investigar os efeitos do abuso de testosterona.

Os próprios autores deixam isso claro no título.

Supraphysiologic Doses

Mesmo assim,

durante décadas o estudo passou a ser utilizado para discutir:

  • TRT;
  • reposição hormonal;
  • envelhecimento;
  • homens hipogonádicos;
  • doses fisiológicas.

O estudo nunca avaliou nenhuma dessas situações.

O segundo erro de interpretação

O artigo mediu:

massa livre de gordura (Fat-Free Mass).

Não mediu:

massa muscular.

Embora exista forte correlação entre ambas, elas não são sinônimos.

A massa livre de gordura inclui:

  • músculo;
  • água corporal;
  • glicogênio;
  • órgãos;
  • tecido conjuntivo;
  • osso.

A testosterona aumenta retenção hídrica intracelular.

Aumenta glicogênio muscular.

Aumenta água associada ao glicogênio.

Consequentemente,

parte importante do aumento observado nas primeiras semanas provavelmente não corresponde exclusivamente ao crescimento de proteínas contráteis.

Mesmo assim,

durante anos milhares de profissionais passaram a afirmar que:

“O estudo mostrou ganho de 3 kg de músculo.”

O artigo nunca disse isso.

O terceiro erro

Outro aspecto frequentemente ignorado.

O estudo teve duração de:

10 semanas.

Isso significa que ele responde apenas uma pergunta:

O que acontece durante aproximadamente dois meses utilizando altas doses de testosterona?

Ele não responde:

  • o que acontece em cinco anos;
  • em dez anos;
  • durante ciclos repetidos;
  • durante envelhecimento.

Mesmo assim,

suas conclusões foram extrapoladas para praticamente toda endocrinologia do exercício.

O quarto erro

A população estudada era extremamente específica.

Homens:

  • jovens;
  • saudáveis;
  • eutestosteronêmicos.

Não foram estudados:

  • mulheres;
  • idosos;
  • adolescentes;
  • indivíduos hipogonádicos;
  • pacientes clínicos.

Mesmo assim,

o estudo passou a ser utilizado como argumento para praticamente qualquer discussão envolvendo testosterona.

O quinto erro

Talvez o mais interessante.

O estudo nunca tentou responder:

Qual a importância relativa do treinamento e da testosterona?

Essa comparação simplesmente não fazia parte dos objetivos.

O objetivo era verificar o efeito da administração de testosterona em indivíduos treinando ou não.

A famosa comparação:

“Testosterona é melhor que treino.”

foi criada posteriormente por leitores.

Não pelos autores.

O que estudos posteriores mostraram?

Nas décadas seguintes surgiram dezenas de ensaios clínicos.

Hoje sabemos que:

  • a resposta depende da dose;
  • depende da duração;
  • depende da concentração sérica;
  • depende do treinamento;
  • depende da ingestão proteica;
  • depende da idade.

A fisiologia é muito mais complexa do que aquela simplificação inicial.

O que Bhasin realmente demonstrou?

Na realidade, o estudo demonstrou algo muito mais específico.

Homens jovens saudáveis expostos durante 10 semanas a doses suprafisiológicas de testosterona apresentam aumento significativo de massa livre de gordura e força muscular, sendo esse efeito potencializado quando associado ao treinamento de força.

Essa é exatamente a conclusão do artigo.

Todo o restante foi criado posteriormente

A maior lição metodológica

Poucos artigos ilustram tão bem a diferença entre:

validade interna e validade externa.

A validade interna do estudo é excelente.

Randomização.

Grupo controle.

Excelente delineamento.

Padronização.

Baixo risco de viés.

Entretanto,

sua validade externa é limitada às condições investigadas.

O erro histórico foi ignorar essa limitação.

A comunidade científica passou a aplicar os resultados para:

  • reposição hormonal;
  • envelhecimento;
  • atletas naturais;
  • fisiologia normal;
  • prescrição clínica.

Nenhuma dessas populações fazia parte do experimento.

A verdadeira lição científica

A história de Bhasin talvez represente o maior exemplo de uma frase clássica da metodologia científica:

Um estudo responde apenas à pergunta que ele foi desenhado para responder.

O problema começa quando os leitores passam a fazer perguntas diferentes utilizando a mesma resposta.

Foi exatamente isso que aconteceu.

O artigo continua sendo um dos melhores ensaios clínicos já realizados na fisiologia do exercício.

O erro nunca esteve em sua metodologia.

O erro esteve na forma como milhares de profissionais extrapolaram seus resultados para contextos completamente diferentes daqueles investigados.

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Att. Dr. Andre Lopes

PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS

@dr.andrelopes no Instagram

Referências

Bhasin S, Storer TW, Berman N, et al. The Effects of Supraphysiologic Doses of Testosterone on Muscle Size and Strength in Normal Men. New England Journal of Medicine. 1996;335(1):1–7. DOI: 10.1056/NEJM199607043350101.

Bhasin S, Woodhouse L, Storer TW. Proof of the effect of testosterone on skeletal muscle. Journal of Endocrinology. 2001;170:27–38.

Bhasin S, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2018.

Basaria S. Male hypogonadism. The Lancet. 2014;383:1250–1263.

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