Blog meu treino certo imagem

MET não é calorimetria: por que a estimativa de calorias pode parecer precisa e ainda estar errada

O Compêndio de Atividades Físicas é uma das ferramentas mais importantes para padronizar o custo energético de diferentes atividades. O problema começa quando médias populacionais são transformadas em números individuais apresentados como se fossem medições exatas.

Imagine terminar uma sessão de exercícios, olhar para o relógio ou aplicativo e encontrar o seguinte resultado: “Você gastou 427 kcal.”

O número é específico, objetivo e transmite segurança. Afinal, não foram “cerca de 400 kcal”, mas exatamente 427. Entretanto, essa precisão visual pode esconder uma incerteza fisiológica considerável.

Muitas estimativas de gasto energético utilizadas em pesquisas, aplicativos e equipamentos são baseadas no equivalente metabólico da tarefa, conhecido pela sigla MET. Essa unidade é extremamente útil para classificar atividades e comparar grupos. Contudo, ela não foi criada para funcionar como uma forma de calorimetria individual de alta precisão.

Para entender o problema, é necessário separar três coisas que frequentemente são tratadas como sinônimos: padronização, estimativa e mensuração.

O que é o Compêndio de Atividades Físicas?

O Compendium of Physical Activities foi desenvolvido para organizar diferentes atividades em um sistema padronizado de códigos e valores de MET. Seu objetivo original foi melhorar a comparabilidade das estimativas de gasto energético obtidas principalmente por questionários e registros de atividade física em estudos populacionais.

Na atualização publicada por Ainsworth et al. (2011), o Compêndio passou a reunir 821 códigos de atividades, dos quais 217 eram novos. Entre os 821 códigos, 561 — aproximadamente 68% — apresentavam valores de MET medidos. Isso também significa que nem todos os valores presentes naquela versão resultavam de uma medição experimental direta específica da atividade.

O trabalho de 2011 teve enorme importância metodológica, mas não representa a versão mais atual. Em 2024, Herrmann et al. publicaram uma nova atualização destinada a adultos de 19 a 59 anos. A versão atual contém 1.114 atividades, sendo 912 classificadas com valores medidos e 202 com valores estimados. Foram adicionadas 303 atividades e modificados 176 valores ou descrições existentes.

Essa evolução mostra que o Compêndio não é uma tabela imutável de verdades fisiológicas. Ele é uma ferramenta científica que acompanha a disponibilidade e a qualidade das evidências.

O que significa MET?

O MET representa a razão entre o custo metabólico de uma atividade e um valor padronizado de metabolismo de repouso. Convencionalmente:

1 MET = 3,5 mL de O₂·kg⁻¹·min⁻¹

Também se utiliza a aproximação de:

1 MET = 1 kcal·kg⁻¹·h⁻¹

Assim, uma atividade classificada como 6 METs é interpretada como apresentando um custo energético aproximadamente seis vezes maior que o valor convencional de repouso.

Uma fórmula muito utilizada para converter MET em gasto energético é:

kcal/min ≈ MET × 3,5 × massa corporal (kg) ÷ 200

Para uma pessoa de 80 kg realizando durante 30 minutos uma atividade classificada como 6 METs, o cálculo seria:

6 × 3,5 × 80 ÷ 200 = 8,4 kcal/min

8,4 × 30 = 252 kcal

A operação matemática está correta. O problema é interpretar o resultado como se 252 kcal fossem uma medição direta do organismo daquela pessoa.

Precisão matemática não significa acurácia fisiológica

Uma calculadora pode produzir 252, 367 ou 427 kcal porque executa corretamente uma fórmula. Entretanto, a qualidade do resultado depende da validade dos valores inseridos no cálculo.

Se o MET atribuído à atividade representa uma média e se o metabolismo de repouso da pessoa difere do valor convencional, o resultado final continuará sendo uma aproximação. Exibir o número sem uma faixa de incerteza apenas cria uma aparência de exatidão.

Esse é um ponto fundamental: um cálculo pode ser aritmeticamente preciso e fisiologicamente pouco acurado.

O problema da convenção de 1 MET

O valor de 3,5 mL de oxigênio por quilograma por minuto é uma convenção histórica, não uma constante biológica universal.

Byrne et al. (2005), ao analisarem dados de 642 mulheres e 127 homens, observaram que o valor convencional de 1 MET superestimava o consumo de oxigênio em repouso em aproximadamente 35%, em média. Idade, sexo, composição corporal e nível de aptidão física ajudam a explicar parte da variação individual.

Considere duas pessoas cujo consumo de oxigênio em repouso seja, respectivamente, 3,5 e 2,6 mL·kg⁻¹·min⁻¹. Se ambas realizarem uma tarefa que exija 14 mL·kg⁻¹·min⁻¹, a demanda corresponderá a:

  • Pessoa A: 14 ÷ 3,5 = 4 vezes o repouso;
  • Pessoa B: 14 ÷ 2,6 = aproximadamente 5,4 vezes o repouso.

A demanda absoluta é a mesma, mas a intensidade relativa não é. Portanto, utilizar o mesmo MET padronizado não representa igualmente a experiência fisiológica das duas pessoas.

Isso não torna o conceito de MET inútil. Apenas delimita o que ele pode responder.

A mesma atividade não custa o mesmo para todas as pessoas

Duas pessoas podem caminhar na mesma velocidade ou executar um exercício aparentemente igual e apresentar gastos energéticos diferentes. Entre os fatores capazes de modificar essa resposta estão:

  • massa corporal e composição corporal;
  • idade e sexo;
  • condicionamento cardiorrespiratório;
  • eficiência mecânica e técnica de movimento;
  • velocidade e intensidade realmente executadas;
  • inclinação, temperatura e outras condições ambientais;
  • medicamentos, condições clínicas e estado fisiológico.

Portanto, a frase “essa atividade possui 6 METs” não equivale a dizer “esta pessoa está gastando exatamente 6 METs neste momento”.

O primeiro enunciado descreve uma classificação padronizada. O segundo pretende descrever uma resposta individual e exigiria mensuração apropriada.

Por que a musculação é ainda mais difícil de estimar?

O treinamento de força apresenta uma característica que dificulta sua representação por um único valor médio: sua demanda metabólica varia continuamente entre períodos de esforço e recuperação.

Uma sessão pode ser organizada como:

série → intervalo → série → intervalo

Entretanto, “uma hora de musculação” pode representar sessões completamente diferentes. Uma pessoa pode realizar 25 séries com intervalos curtos; outra pode executar 10 séries pesadas, com quatro minutos de recuperação. Ambas registram 60 minutos de treinamento, mas não realizaram a mesma quantidade de trabalho nem apresentaram a mesma demanda energética.

O gasto também pode ser influenciado por carga, repetições, amplitude, exercícios selecionados, massa muscular envolvida, proximidade da falha, duração dos intervalos e volume total.

Por isso, transformar toda sessão de musculação em um único valor de MET é uma simplificação particularmente grosseira quando o objetivo é prever o gasto individual.

Lytle et al. (2019) tentaram aumentar a individualização por meio de uma equação que incorporava características corporais, idade, altura e volume do treinamento resistido. Esse tipo de abordagem é conceitualmente mais específico do que atribuir um único MET a toda musculação. Ainda assim, o modelo foi desenvolvido em uma amostra de apenas 52 indivíduos, o que limita sua generalização e exige validação externa antes de ser tratado como solução definitiva.

Nem todo valor presente na tabela possui a mesma força de evidência

Outro erro frequente é supor que toda atividade listada no Compêndio tenha sido medida em grandes experimentos, com amostras representativas e protocolos equivalentes.

A própria classificação entre valores medidos e estimados mostra que há diferentes níveis de sustentação empírica. Mesmo entre os valores medidos, os estudos de origem podem variar em tamanho amostral, características dos participantes, equipamentos e condições experimentais.

Assim, a presença de um número em uma tabela científica não elimina a necessidade de analisar sua origem e seus limites.

O que o Compêndio pode — e o que não pode — demonstrar

O Compêndio é especialmente útil para:

  • padronizar a classificação de atividades;
  • converter relatos de atividade física em uma métrica comum;
  • comparar exposições em pesquisas epidemiológicas;
  • produzir estimativas populacionais;
  • apoiar pesquisas, educação e ações de saúde pública.

Por outro lado, um valor de MET não demonstra que determinada atividade:

  • causa maior perda de gordura;
  • melhora mais a saúde do que outra;
  • aumenta o VO₂máx em uma quantidade específica;
  • produz determinado déficit energético;
  • reduz mortalidade;
  • ou gerou exatamente o número de calorias exibido por um dispositivo.

O Compêndio classifica o custo metabólico padronizado. Perguntas sobre eficácia, causalidade e desfechos clínicos dependem de outros desenhos de estudo.

O maior abuso: transformar uma referência populacional em calorimetria individual

O problema não está no Compêndio, mas no modo como seus valores são frequentemente comunicados.

A cadeia costuma ser a seguinte:

Compêndio → atividade classificada em X METs → fórmula baseada em peso e tempo → aplicativo informa “você queimou 483 kcal”.

Cada etapa acrescenta uma aparência de individualização. No entanto, o valor inicial ainda pode ser uma média da categoria, e o metabolismo real do usuário permanece desconhecido.

A interpretação mais adequada seria:

“Estimativa aproximada baseada no custo metabólico médio atribuído a uma atividade dessa categoria.”

E não:

“Seu organismo gastou exatamente 483 kcal.”

Conclusão: use o MET como referência, não como verdade individual

O Compêndio de Atividades Físicas é uma contribuição científica valiosa. Suas limitações não invalidam a ferramenta; na maior parte dos casos, elas decorrem justamente de sua finalidade: oferecer uma linguagem comum para classificar centenas de atividades.

Em pesquisas populacionais, o MET favorece padronização e comparabilidade. Na prática profissional, pode fornecer uma estimativa inicial do custo energético. Para indivíduos, entretanto, o resultado deve ser interpretado com cautela e comunicado como aproximação.

Quanto mais variável for a atividade — como ocorre no treinamento de força — maior deve ser essa cautela.

A mensagem final é simples: MET não é calorimetria. Um aplicativo pode calcular corretamente uma estimativa, mas isso não significa que tenha medido com exatidão o gasto energético do organismo.

Para fins gerais, como orientação de praticantes recreacionais em academias, os valores apresentados pelo Compêndio de Atividades Físicas podem ser utilizados como referências práticas para estimar o custo energético das atividades, desde que os resultados sejam interpretados como aproximações, e não como medidas exatas.

Em atletas de alto rendimento, entretanto, pequenas diferenças no gasto energético podem interferir no planejamento nutricional, na recuperação e no desempenho.

Nesses casos, médias populacionais baseadas em MET podem ser insuficientes, sendo recomendável utilizar métodos individualizados e mais precisos, como calorimetria indireta, avaliação do consumo de oxigênio, mensuração da taxa metabólica de repouso e protocolos laboratoriais específicos para a modalidade.

Portanto, quanto maior a exigência de desempenho e a necessidade de controle das variáveis, menor deve ser a dependência de estimativas generalizadas.

Att. Dr. Andre Lopes Phd em ciências do movimento humano @dr.andrelopes

Referências

AINSWORTH, B. E. et al. 2011 Compendium of Physical Activities: a second update of codes and MET values. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 43, n. 8, p. 1575–1581, 2011. DOI: 10.1249/MSS.0b013e31821ece12.

BYRNE, N. M. et al. Metabolic equivalent: one size does not fit all. Journal of Applied Physiology, v. 99, n. 3, p. 1112–1119, 2005. DOI: 10.1152/japplphysiol.00023.2004.

HERRMANN, S. D. et al. 2024 Adult Compendium of Physical Activities: a third update of the energy costs of human activities. Journal of Sport and Health Science, v. 13, n. 1, p. 6–12, 2024. DOI: 10.1016/j.jshs.2023.10.010.

LYTLE, J. R. et al. Predicting energy expenditure of an acute resistance exercise bout in men and women. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 51, n. 7, p. 1532–1537, 2019. DOI: 10.1249/MSS.0000000000001910.

Rolar para cima