Em 1936, Hans Selye publicou na revista Nature uma comunicação científica de apenas uma página que mudaria profundamente a maneira como a fisiologia passou a compreender a relação entre estresse, adaptação e doença.
O título correto do trabalho é A Syndrome Produced by Diverse Nocuous Agents — em português, “Uma síndrome produzida por diversos agentes nocivos”. Apesar de sua enorme importância histórica, o estudo precisa ser interpretado dentro de seu contexto experimental e não pode ser transformado diretamente em uma regra de prescrição do treinamento.
O que Selye investigou?
Selye submeteu ratos a diferentes agentes potencialmente lesivos, entre eles:
- exposição intensa ao frio;
- lesões cirúrgicas;
- choque espinhal;
- exercício muscular excessivo;
- administração de doses subletais de adrenalina, atropina, morfina, formaldeído e outras substâncias.
Embora os agentes fossem muito diferentes, os animais apresentavam algumas alterações orgânicas semelhantes. Entre elas estavam:
- redução do timo, baço e linfonodos;
- alterações no fígado;
- desaparecimento de tecido adiposo;
- edema;
- hemorragias e ulcerações no trato gastrointestinal;
- modificações estruturais nas glândulas suprarrenais.
A grande contribuição do estudo não foi descobrir que todos os estímulos produzem exatamente a mesma resposta. Selye observou que agentes distintos podiam desencadear, além de seus efeitos específicos, um conjunto relativamente comum de respostas sistêmicas ao dano.
Foi essa resposta compartilhada que deu origem ao conceito posteriormente denominado Síndrome Geral de Adaptação. O trabalho original pode ser consultado na Nature.
Os três estágios descritos por Selye
1. Reação de alarme
Nas primeiras 6 a 48 horas após a exposição ao agente nocivo, os animais apresentaram intensa desorganização fisiológica.
Essa fase representava a resposta inicial do organismo diante de uma ameaça capaz de perturbar profundamente sua estabilidade interna. Posteriormente, essa resposta seria relacionada à ativação do sistema nervoso simpático e do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal.
No treinamento, uma sessão suficientemente exigente também produz uma perturbação aguda, que pode envolver:
- redução temporária do desempenho;
- depleção parcial de substratos energéticos;
- fadiga neuromuscular;
- alterações metabólicas;
- danos estruturais em determinadas condições;
- respostas inflamatórias;
- aumento da percepção subjetiva de esforço.
Entretanto, a fadiga provocada por uma sessão normal de exercício não deve ser equiparada à lesão sistêmica grave produzida nos animais de Selye.
2. Estágio de resistência
Quando a exposição continuava em magnitude tolerável, os animais desenvolviam maior resistência ao agente. A aparência e a função de alguns órgãos aproximavam-se novamente da normalidade, apesar da continuidade do estressor.
Esse estágio ajuda a ilustrar um princípio central do treinamento: quando uma perturbação é acompanhada de recuperação suficiente, o organismo pode reorganizar-se e tornar-se mais preparado para enfrentar demandas semelhantes.
No treinamento, essa reorganização pode envolver:
- aumento da força;
- hipertrofia muscular;
- melhora da coordenação intermuscular;
- aumento da capacidade oxidativa;
- expansão do conteúdo mitocondrial;
- maior tolerância ao esforço;
- melhora da capacidade de recuperação.
Contudo, essas adaptações não são inespecíficas. Elas dependem do tipo de exercício, volume, intensidade, frequência, amplitude de movimento, proximidade da falha, velocidade de execução, estado nutricional, sono e características individuais.
A Síndrome Geral de Adaptação ajuda a compreender a existência de uma resposta geral ao estresse, mas o resultado do treinamento depende também do princípio da especificidade.
3. Estágio de exaustão
Quando o agente nocivo era mantido por tempo suficientemente longo e em magnitude incompatível com a recuperação dos animais, a resistência adquirida desaparecia. Os sinais observados na fase inicial retornavam e os animais acabavam morrendo.
A exaustão, portanto, não era simplesmente o resultado de “repetir o mesmo treinamento”. Ela decorria da exposição prolongada a agentes efetivamente nocivos, em condições experimentais extremas.
No esporte, a aproximação conceitual mais adequada não é dizer que todo programa chegará inevitavelmente à exaustão, mas reconhecer que a combinação entre carga excessiva e recuperação insuficiente pode produzir maladaptação.
A literatura contemporânea distingue pelo menos três condições:
| Condição | Resposta característica | Recuperação esperada |
|---|---|---|
| Functional overreaching | Queda temporária do desempenho, seguida de recuperação e possível melhora | Dias a poucas semanas |
| Non-functional overreaching | Queda prolongada sem benefício adaptativo claro | Semanas a meses |
| Síndrome do overtraining | Comprometimento prolongado do desempenho associado a alterações fisiológicas e/ou psicológicas | Meses, eventualmente mais |
Esses estados não são determinados exclusivamente pelo treinamento. Sono, alimentação, doenças, viagens, competições, pressão profissional, conflitos emocionais e outros estressores também compõem a carga total suportada pelo atleta. Essa distinção é apresentada no consenso conjunto do ECSS e do ACSM sobre overtraining (Meeusen et al., 2013).
O estudo não demonstrou que a adaptação dura apenas três meses
Este é o ponto mais importante a ser corrigido na interpretação do texto original.
Selye relatou que, em seus experimentos, o estágio terminal poderia aparecer depois de aproximadamente um a três meses, dependendo da gravidade e da continuidade do agente nocivo. Esse intervalo descrevia o comportamento dos animais dentro daquelas condições experimentais específicas.
Isso não significa que:
- seres humanos entram em exaustão após três meses de treinamento;
- um programa precise obrigatoriamente ser trocado nesse prazo;
- a hipertrofia cesse depois de três meses;
- o organismo possua um “relógio fisiológico” fixo para a exaustão;
- todo treinamento sem variação conduza ao overtraining.
O tempo até uma adaptação ou maladaptação depende da magnitude do estímulo, da recuperação, da experiência do indivíduo e do sistema fisiológico analisado. Algumas adaptações ocorrem em dias; outras exigem meses ou anos.
Portanto, a frase “qualquer estímulo que abale a fisiologia produzirá adaptações durante três meses e, depois disso, surgirá a exaustão” não encontra sustentação científica no estudo de Selye.
Selye comprovou a necessidade da periodização?
Não diretamente.
O estudo não comparou programas periodizados e não periodizados, não avaliou atletas, não investigou hipertrofia ou força e não testou diferentes modelos de organização do treinamento. Assim, ele não pode ser utilizado como prova experimental da superioridade da periodização.
A Síndrome Geral de Adaptação serviu como fundamento conceitual para que autores posteriores organizassem o treinamento em ciclos de estímulo, recuperação e adaptação. A periodização procura administrar a relação entre:
- sobrecarga;
- especificidade;
- fadiga;
- recuperação;
- adaptação;
- desempenho competitivo.
Há debate científico sobre a extensão em que o modelo de Selye pode ser aplicado ao treinamento. Alguns autores defendem seu valor como estrutura conceitual para compreender estresse e adaptação (Cunanan et al., 2018). Outros alertam que a transferência direta de experimentos com agentes nocivos para o treinamento resistido pode ser excessivamente simplificada.
A interpretação mais equilibrada é esta: Selye oferece um modelo histórico e didático, mas não uma fórmula de prescrição.
Treinar intensamente não significa caminhar inevitavelmente para a exaustão
Sessões intensas podem ser realizadas de maneira repetida quando:
- o volume total é tolerável;
- existe recuperação suficiente;
- a progressão é compatível com a capacidade individual;
- sono e alimentação estão adequados;
- o desempenho e os sintomas são monitorados;
- a carga é ajustada quando necessário.
Da mesma forma, um programa aparentemente variado e “periodizado” pode produzir maladaptação se sua carga superar continuamente a capacidade de recuperação do atleta.
O problema central não é simplesmente a ausência de variação. É a incompatibilidade persistente entre demanda e capacidade de resposta.
Uma interpretação moderna para o treinamento
A relação entre treinamento e adaptação não deve ser representada como uma sequência rígida:
alarme → resistência → exaustão.
Na prática, o organismo recebe diversos estímulos simultâneos, cada um com sua própria velocidade de recuperação e adaptação. Um atleta pode apresentar melhora cardiovascular enquanto acumula fadiga musculoesquelética, manter a força máxima enquanto perde motivação ou demonstrar recuperação bioquímica sem recuperar completamente o desempenho.
Por isso, a resposta ao treinamento deve ser compreendida como dinâmica, específica e individual.
A aplicação prática mais defensável do trabalho de Selye é:
O treinamento precisa produzir perturbação suficiente para estimular adaptação, mas essa perturbação deve permanecer compatível com a capacidade de recuperação do indivíduo.
O objetivo não é eliminar o estresse. Sem estresse suficiente, não existe motivo para adaptação. O objetivo é administrar sua magnitude, frequência e duração.
O que monitorar na prática?
Nenhum marcador isolado diagnostica precocemente todas as formas de fadiga ou overtraining. Uma abordagem mais segura combina diferentes dimensões:
- evolução do desempenho;
- percepção subjetiva de esforço;
- disposição para treinar;
- qualidade do sono;
- dor muscular persistente;
- humor e motivação;
- frequência cardíaca em testes padronizados, quando aplicável;
- carga interna e externa;
- presença de doenças ou estressores externos.
Uma revisão sistemática encontrou utilidade potencial em alterações do desempenho, frequência cardíaca, percepção de esforço e questionários de demandas e humor, mas mostrou que nenhum desses parâmetros deve ser interpretado isoladamente (Roete et al., 2021).
Conclusão
O artigo de Hans Selye é uma obra histórica porque demonstrou que diferentes agentes nocivos podem provocar componentes comuns de uma resposta sistêmica ao estresse. Sua contribuição ajudou a construir a fisiologia moderna do estresse e influenciou os modelos utilizados posteriormente na teoria do treinamento.
Entretanto, o estudo:
- foi realizado com ratos;
- utilizou agentes extremos e potencialmente letais;
- não investigou programas de treinamento esportivo;
- não comparou modelos de periodização;
- não estabeleceu três meses como limite humano de adaptação;
- não demonstrou que a repetição de um estímulo conduz inevitavelmente à exaustão.
A grande lição de Selye não é que todo treinamento termina em exaustão. É que adaptação e desgaste dependem da relação entre a magnitude do desafio e a capacidade do organismo de recuperar-se e reorganizar-se.
Em termos práticos:
O estímulo inicia o processo, mas é a relação entre carga, recuperação e individualidade que determina se o resultado será adaptação ou maladaptação.
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Att. Dr. Andre Lopes – PhD em ciências do movimento humano
Referências principais
SELYE, H. A syndrome produced by diverse nocuous agents. Nature, v. 138, p. 32, 1936. DOI: 10.1038/138032a0.
CUNANAN, A. J. et al. The General Adaptation Syndrome: a foundation for the concept of periodization. Sports Medicine, v. 48, p. 787–797, 2018. DOI: 10.1007/s40279-017-0855-3.
MEEUSEN, R. et al. Prevention, diagnosis and treatment of the overtraining syndrome: joint consensus statement of the ECSS and ACSM. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 45, n. 1, p. 186–205, 2013. DOI: 10.1249/MSS.0b013e318279a10a.
ROETE, A. J. et al. A systematic review on markers of functional overreaching in endurance athletes. International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 16, n. 8, p. 1065–1073, 2021. DOI: 10.1123/ijspp.2021-0024.



