A força de preensão manual, frequentemente chamada de handgrip strength, é uma das medidas de função muscular mais utilizadas em pesquisas epidemiológicas, avaliações clínicas, geriatria, nutrição e reabilitação. O teste é rápido, relativamente barato, portátil e apresenta boa reprodutibilidade quando realizado com equipamento e protocolo padronizados.
Entretanto, sua aparente simplicidade pode levar a interpretações equivocadas. O dinamômetro de mão não mede diretamente a força de todos os músculos do corpo. Ele quantifica a força isométrica máxima produzida durante o ato de apertar o equipamento, envolvendo principalmente os músculos flexores dos dedos, da mão e do antebraço.
Apesar dessa especificidade, a força de preensão apresenta associação com outras manifestações da função muscular e com diferentes desfechos de saúde. Por isso, pode funcionar como um indicador clínico útil — mas não como substituto universal de todas as avaliações de força.
O que o handgrip realmente mede?
Durante o teste, o avaliado realiza uma contração voluntária máxima contra uma empunhadura que praticamente não se desloca. Portanto, trata-se de uma avaliação de força isométrica máxima de preensão.
Em termos físicos, força é expressa no Sistema Internacional em newtons:
F= m \ a
Grande parte dos dinamômetros, porém, apresenta o resultado em “quilogramas”. Tecnicamente, essa leitura representa quilograma-força, ou kgf, e não massa corporal em quilogramas
A conversão aproximada é:
F(N)= força em kgf \ 9,80665
Uma leitura de 40 kgf corresponde, aproximadamente, a
40 \ 9,80665 = 392,3N
Na prática clínica, valores em kgf são amplamente utilizados porque facilitam a comparação com estudos, tabelas normativas e pontos de corte. Em um relatório científico mais rigoroso, entretanto, é recomendável informar a unidade utilizada pelo aparelho e evitar confundir quilograma-força com quilograma de massa.
Força não é trabalho mecânico
O teste também ajuda a compreender a diferença entre força, trabalho e gasto energético.
O trabalho mecânico externo é calculado, em sua forma mais simples, por:
W = F \ d
Em uma contração isométrica, o dinamômetro sofre pouco ou nenhum deslocamento externo. Assim, mesmo que o indivíduo produza uma força elevada, o trabalho mecânico externo tende a ser muito pequeno:
d ≈ 0 ⇒ W ≈ 0
Isso não significa que não exista esforço fisiológico. A manutenção da contração muscular demanda ativação neural, formação de pontes cruzadas, ciclagem de cálcio e consumo de ATP. Portanto, há custo energético mesmo sem trabalho mecânico externo significativo.
O handgrip mede a força aplicada ao instrumento, e não o trabalho realizado, a potência produzida ou o gasto energético do teste.
A força de preensão representa a força muscular global?
Somente de maneira indireta.
A força registrada pelo handgrip depende principalmente da capacidade dos músculos da mão e do antebraço, mas também é influenciada por fatores como:
- comando neural e recrutamento de unidades motoras;
- dor e limitações articulares;
- tamanho da mão e ajuste da empunhadura;
- familiarização com o teste;
- motivação e compreensão das instruções;
- idade, sexo e dimensões corporais;
- doenças neurológicas ou musculoesqueléticas;
- modelo e calibração do dinamômetro.
A literatura mostra que a força de preensão está relacionada à força geral, à função dos membros superiores e a diferentes indicadores de capacidade física. Isso explica sua utilização como uma espécie de “sinal vital” da função muscular. Contudo, essa associação não significa equivalência.
Uma pessoa pode apresentar boa força de preensão e força reduzida nos membros inferiores, por exemplo. Da mesma forma, atletas de modalidades que exigem grande participação dos membros inferiores não devem ter seu desempenho de força classificado apenas pelo handgrip.
Portanto, a interpretação mais correta é:
O handgrip mede diretamente a força isométrica de preensão e pode funcionar como indicador indireto da função muscular geral, especialmente em avaliações clínicas e populacionais.
Por que a força de preensão se tornou tão importante?
Estudos observacionais encontraram associações entre baixa força de preensão e maior risco de incapacidade, hospitalização, fragilidade, complicações clínicas e mortalidade.
No estudo PURE, que acompanhou aproximadamente 140 mil adultos de diferentes países, menores valores de força de preensão estiveram associados a maior risco de mortalidade geral e cardiovascular. A força de preensão também apresentou capacidade prognóstica superior à pressão arterial sistólica para alguns desfechos analisados. Isso não significa que aumentar isoladamente a força da mão necessariamente reduza o risco de morte. O resultado sugere que a força de preensão funciona como marcador do estado geral de saúde, da reserva fisiológica e da função neuromuscular. Leong et al., 2015.
Uma revisão sobre sua utilização em adultos mais velhos também mostrou associações com força geral, função dos membros superiores, densidade mineral óssea, fraturas, quedas, estado nutricional, cognição e diferentes desfechos clínicos. Novamente, associação prognóstica não deve ser confundida com causalidade direta. Bohannon, 2019.
Como realizar corretamente o teste?
A falta de padronização é um dos maiores problemas da dinamometria manual. Uma revisão metodológica encontrou variações importantes entre estudos quanto ao equipamento, posição corporal, braço avaliado, número de tentativas e escolha entre média ou maior resultado. Essas diferenças podem alterar o valor obtido e dificultar comparações. Roberts et al., 2011.
Um protocolo clínico pode utilizar a seguinte padronização:
1. Equipamento
Preferencialmente, deve-se utilizar um dinamômetro validado, calibrado e com confiabilidade conhecida. O dinamômetro hidráulico Jamar é um dos instrumentos mais utilizados nas pesquisas.
Equipamentos de marcas ou mecanismos diferentes não devem ser considerados automaticamente intercambiáveis. Para avaliações longitudinais, o ideal é utilizar sempre o mesmo modelo e, se possível, o mesmo aparelho.
2. Ajuste da empunhadura
A abertura da empunhadura deve permitir que o indivíduo envolva o aparelho confortavelmente e produza força sem limitação mecânica.
No dinamômetro Jamar, a posição 2 é frequentemente adotada como padrão e produziu os maiores valores médios em uma grande amostra de adultos. Entretanto, características individuais da mão podem justificar ajustes, desde que sejam registrados e repetidos nas avaliações futuras. Trampisch et al., 2012.
3. Posição corporal
Uma posição frequentemente utilizada é:
- sentado em cadeira estável;
- pés apoiados no chão;
- quadris e joelhos próximos de 90°;
- ombro aduzido e em rotação neutra;
- cotovelo flexionado a 90°;
- antebraço em posição neutra;
- punho entre 0° e 30° de extensão;
- discreto desvio ulnar, quando necessário;
- braço sem apoio que ajude a produzir força;
- dinamômetro sem encostar no tronco ou na cadeira.
O mais importante não é apenas escolher uma posição aceita, mas reproduzi-la em todas as avaliações.
4. Instruções
O avaliador deve fornecer instruções claras e padronizadas, por exemplo:
“Quando eu disser ‘já’, aperte o dinamômetro com a maior força possível e continue apertando até eu mandar parar.”
O incentivo verbal deve permanecer semelhante entre participantes e entre avaliações. Mudanças na intensidade do encorajamento podem influenciar o desempenho.
5. Número de tentativas
Podem ser realizadas três tentativas em cada mão, alternando os lados. Um intervalo de aproximadamente 30 a 60 segundos antes de repetir o teste no mesmo lado ajuda a reduzir a interferência da fadiga.
O avaliador deve observar se os valores apresentam grande variação. Uma diferença muito elevada pode indicar falta de compreensão, dor, alteração da posição, aprendizagem ou esforço inconsistente.
6. Critério de registro
Dois critérios aparecem com frequência:
- maior valor entre as tentativas;
- média das tentativas.
Ambos podem apresentar utilidade, mas não devem ser misturados. O protocolo precisa definir antecipadamente qual resultado será empregado. Para acompanhamento longitudinal, o mesmo critério deve ser mantido.
Um relatório adequado pode apresentar:
| Variável | Resultado |
|---|---|
| Melhor tentativa – mão direita | 44 kgf |
| Média das três tentativas – mão direita | 43 kgf |
| Melhor tentativa – mão esquerda | 40 kgf |
| Média das três tentativas – mão esquerda | 39 kgf |
| Mão dominante | Direita |
| Presença de dor | Não |
Como interpretar o resultado?
Um número isolado não diz se a força está “boa” ou “ruim”. A interpretação deve considerar, no mínimo:
- idade;
- sexo;
- altura e dimensões corporais;
- população de referência;
- condição clínica;
- mão dominante;
- equipamento;
- protocolo utilizado;
- finalidade da avaliação.
Uma síntese recente reuniu dados de mais de 2,4 milhões de adultos de 69 países e regiões. Em média, a força absoluta atingiu seu pico entre 30 e 39 anos, com valores próximos de 49,7 kgf nos homens e 29,7 kgf nas mulheres, declinando posteriormente. Esses números representam médias internacionais, e não metas obrigatórias nem pontos de corte diagnósticos. Tomkinson et al., 2025.
Dados anteriores de quase 50 mil participantes britânicos também mostraram três fases gerais: aumento da força até o início da vida adulta, relativa manutenção durante parte da meia-idade e redução progressiva nas idades mais avançadas. Dodds et al., 2014.
Existem diferenças regionais relevantes. Uma revisão internacional identificou valores menores em algumas regiões em desenvolvimento quando comparados às referências britânicas, reforçando que tabelas de um país não devem ser aplicadas indiscriminadamente a todas as populações. Dodds et al., 2016.
No Brasil, o estudo Fibra-BR desenvolveu valores normativos para pessoas entre 65 e 90 anos, considerando sexo, idade e estatura. Essa estratégia é mais informativa do que comparar todos os idosos com um único número. Reichenheim et al., 2021.
Pontos de corte para sarcopenia
O consenso europeu EWGSOP2 coloca a baixa força muscular no centro do rastreamento da sarcopenia. Para a força de preensão, sugere os seguintes pontos de corte:
- homens: menos de 27 kgf;
- mulheres: menos de 16 kgf.
Esses valores indicam baixa força no contexto do rastreamento de sarcopenia em adultos mais velhos. Eles não devem ser usados para classificar o desempenho de jovens, atletas ou praticantes de musculação. Cruz-Jentoft et al., 2019.
Também é incorreto concluir que um resultado abaixo desses valores, sozinho, confirma sarcopenia. No algoritmo do EWGSOP2:
- baixa força indica sarcopenia provável;
- baixa quantidade ou qualidade muscular confirma o diagnóstico;
- baixo desempenho físico indica maior gravidade.
Pontos de corte diferentes podem modificar substancialmente a prevalência estimada de sarcopenia. Isso mostra que esses números são decisões operacionais construídas para determinada finalidade clínica, e não fronteiras biológicas absolutas. Van Ancum et al., 2020.
Devemos dividir a força pelo peso corporal?
É possível calcular um índice simples:
Uma pessoa de 80 kg com força de 44 kgf teria:
Força relativa}=força de preensão em kg \ massa corporal em kg
44 / 8 = 0,55
Esse cálculo pode ser útil em algumas análises, mas apresenta limitações. A relação entre força e tamanho corporal não é necessariamente linear. Dividir diretamente pela massa corporal pressupõe que duplicar a massa deveria duplicar a força, o que nem sempre é fisiologicamente adequado.
Estudos podem utilizar outras normalizações, como força dividida pela altura ao quadrado, massa magra ou modelos alométricos. Portanto, a força relativa não deve substituir os valores absolutos nem ser comparada com tabelas que utilizaram outro método.
O handgrip serve para acompanhar o treinamento?
Sim, desde que a interpretação permaneça específica.
O teste pode ser útil para acompanhar:
- recuperação de lesões da mão e do antebraço;
- evolução da força de preensão;
- alterações funcionais em adultos mais velhos;
- estado funcional em populações clínicas;
- demandas específicas de modalidades que utilizam intensamente a pegada.
Para acompanhar força máxima dos membros inferiores ou o efeito de um programa de musculação global, porém, o handgrip deve ser combinado com testes específicos, como dinamometria de joelho, testes de levantar da cadeira, saltos, testes isocinéticos ou testes de repetição máxima.
Se o programa de treinamento melhora principalmente a força das pernas, não existe garantia de que o handgrip aumentará na mesma proporção.
Conclusão
O dinamômetro de preensão manual oferece uma medida simples, objetiva e reprodutível da força isométrica máxima de preensão. Seu valor científico e clínico não está em representar perfeitamente todos os músculos do corpo, mas em fornecer um indicador funcional de baixo custo, relacionado ao envelhecimento, à capacidade física e a diferentes desfechos de saúde.
Para que a medida seja válida, é indispensável padronizar equipamento, empunhadura, posição corporal, instruções, número de tentativas e critério de registro. A interpretação deve utilizar referências compatíveis com idade, sexo, características corporais, população e objetivo da avaliação.
Em síntese: o handgrip mede diretamente a força de preensão; informa indiretamente sobre a função muscular geral; e não mede trabalho mecânico, potência, gasto energético ou força do corpo inteiro.
Referências
- Roberts HC, Denison HJ, Martin HJ, et al. A review of the measurement of grip strength in clinical and epidemiological studies: towards a standardised approach. Age Ageing. 2011;40(4):423–429. doi:10.1093/ageing/afr051.
- Trampisch US, Franke J, Jedamzik N, Hinrichs T, Platen P. Optimal Jamar dynamometer handle position to assess maximal isometric hand grip strength in epidemiological studies. J Hand Surg Am. 2012;37(11):2368–2373.
- Dodds RM, Syddall HE, Cooper R, et al. Grip strength across the life course: normative data from twelve British studies. PLoS One. 2014;9(12):e113637.
- Dodds RM, Syddall HE, Cooper R, et al. Global variation in grip strength: a systematic review and meta-analysis of normative data. Age Ageing. 2016;45(2):209–216.
- Leong DP, Teo KK, Rangarajan S, et al. Prognostic value of grip strength: findings from the Prospective Urban Rural Epidemiology study. Lancet. 2015;386(9990):266–273.
- Bohannon RW. Grip strength: an indispensable biomarker for older adults. Clin Interv Aging. 2019;14:1681–1691.
- Cruz-Jentoft AJ, Bahat G, Bauer J, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age Ageing. 2019;48(1):16–31.
- Reichenheim ME, Lourenço RA, Nascimento JS, et al. Normative reference values of handgrip strength for Brazilian older people aged 65 to 90 years: evidence from the multicenter Fibra-BR study. PLoS One. 2021;16(5):e0250925.
- Tomkinson GR, Lang JJ, Rubín L, et al. International norms for adult handgrip strength: a systematic review of data on 2.4 million adults aged 20 to 100+ years from 69 countries and regions. J Sport Health Sci. 2025;14:101014.
- Van Ancum JM, Alcazar J, Meskers CGM, et al. Impact of using the updated EWGSOP2 definition in diagnosing sarcopenia: a clinical perspective. Arch Gerontol Geriatr. 2020;90:104125.



