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A mentira “boa” sobre a massa muscular e saúde.

A ideia de que pessoas com mais massa muscular “atravessam melhor” doenças, cirurgias e internações não surgiu de um único estudo. Ela foi construída pela convergência de quatro linhas de pesquisa: metabolismo do trauma, envelhecimento/sarcopenia, epidemiologia clínica e fisiologia muscular.

A formulação popular — “massa muscular é uma reserva para enfrentar doenças” — é plausível, mas simplifica demais o que a evidência demonstra. Vamos verificar o que a ciência atual nos diz sobre isso?

1. A origem mais antiga: o músculo como reserva proteica

A raiz fisiológica remonta aos estudos de David Cuthbertson, nas décadas de 1930 e 1940. Ao estudar pacientes com fraturas e cirurgias ortopédicas, ele observou:

  • aumento expressivo da excreção urinária de nitrogênio;
  • balanço nitrogenado negativo;
  • perda de tecido corporal após o trauma;
  • relação entre a gravidade da lesão e a intensidade do catabolismo.

Esses trabalhos estabeleceram que trauma e doença grave provocam uma resposta metabólica catabólica. Grande parte dos aminoácidos liberados vem da degradação das proteínas musculares. National Academies – metabolismo proteico após trauma

Durante uma doença grave, esses aminoácidos podem ser utilizados para:

  • síntese de proteínas de fase aguda;
  • produção de células e mediadores imunológicos;
  • reparação de tecidos e cicatrização;
  • gliconeogênese hepática;
  • manutenção de proteínas viscerais;
  • resposta ao estresse metabólico.

Daí surgiu a noção de que o músculo funciona como uma espécie de “reserva lábil de aminoácidos”. Uma revisão clássica de 1977 já destacava que grande parte dessa reserva proteica mobilizável se encontra no músculo esquelético. Swick & Benevenga, 1977

Isso não significa que possuir muito músculo impeça o catabolismo. Significa que uma pessoa que inicia uma doença grave com pouca reserva muscular pode alcançar mais rapidamente um nível crítico de perda funcional.

2. A contribuição da geriatria: sarcopenia e fragilidade

A segunda vertente surgiu no estudo do envelhecimento. Em 1989, Irwin Rosenberg propôs o termo sarcopenia para descrever a perda de massa muscular associada à idade. Posteriormente, percebeu-se que essa perda estava relacionada a:

  • limitação da mobilidade;
  • quedas e fraturas;
  • perda da independência;
  • institucionalização;
  • complicações clínicas;
  • mortalidade.

A definição evoluiu. Atualmente, sarcopenia não significa simplesmente “pouco músculo”. Ela envolve principalmente baixa força, associada à redução da quantidade ou qualidade muscular e, nos casos mais graves, ao comprometimento do desempenho físico. A trajetória histórica do conceito é discutida por Rosenberg e por esta revisão sobre a evolução da pesquisa em sarcopenia.

Essa literatura conectou a massa muscular ao conceito mais amplo de reserva fisiológica: a capacidade de suportar um estressor sem perder completamente a função.

Por exemplo, duas pessoas podem perder 3 kg de músculo durante uma internação. A que começa com melhor força e maior capacidade funcional pode continuar conseguindo levantar-se e caminhar; a que já inicia próxima do limite funcional pode tornar-se dependente.

3. A epidemiologia clínica consolidou a ideia

Com a disseminação da tomografia computadorizada, DXA, bioimpedância e testes de força, muitos estudos passaram a mostrar que pessoas com baixa massa muscular ou sarcopenia apresentavam piores desfechos em diferentes condições:

  • câncer;
  • cirurgias de grande porte;
  • doença renal;
  • cirrose;
  • transplantes;
  • internação em terapia intensiva;
  • doenças cardiovasculares;
  • envelhecimento.

Em pacientes cirúrgicos, por exemplo, a sarcopenia está associada a maior mortalidade, mais complicações e maior tempo de internação. Revisão sistemática em pacientes cirúrgicos

Na oncologia, uma revisão abrangente recente encontrou associação entre sarcopenia, complicações pós-operatórias importantes e menor sobrevida em tumores gastrointestinais. Umbrella review de 2025

Uma meta-análise envolvendo diferentes condições clínicas também encontrou associação relativamente consistente entre menor massa magra e maior mortalidade. Lee et al., 2021

Esses resultados fortaleceram a narrativa de que “mais músculo protege”. Entretanto, a maior parte dessa literatura é observacional.

4. O músculo passou a ser visto como órgão metabólico e endócrino

A partir dos anos 2000, especialmente com os trabalhos de Bente Klarlund Pedersen e colaboradores, ganhou força o conceito de músculo esquelético como órgão secretor.

Durante a contração, o músculo produz e libera moléculas chamadas miocinas, capazes de participar da comunicação com tecido adiposo, fígado, sistema imune, cérebro e outros órgãos. Pedersen et al., 2007

Além disso, o músculo é importante para:

  • captação de glicose mediada pela insulina;
  • oxidação e armazenamento de substratos;
  • equilíbrio energético;
  • capacidade de realizar movimento;
  • ventilação, tosse e mobilização;
  • prevenção de quedas;
  • recuperação funcional.

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Mas aqui existe uma distinção importante: muitos desses benefícios decorrem do músculo ativo e funcional, não simplesmente de possuir maior volume muscular.

A ressalva fundamental: massa muscular pode ser marcador, e não apenas causa

Pessoas com maior massa muscular geralmente também apresentam:

  • maior nível de atividade física;
  • melhor força;
  • melhor alimentação;
  • menor carga de doenças;
  • menor inflamação crônica;
  • melhor função hormonal e neurológica;
  • menor fragilidade;
  • melhores condições socioeconômicas e de cuidado.

Portanto, quando um estudo mostra que indivíduos com mais músculo sobrevivem mais, não podemos concluir automaticamente que o volume muscular, isoladamente, causou a maior sobrevivência.

Existe também causalidade reversa: doenças silenciosas podem provocar perda muscular antes do diagnóstico. Nesse caso, a baixa massa não é necessariamente a causa do pior prognóstico; pode ser um sinal de que a doença já estava mais avançada.

Força parece ser mais informativa do que massa isolada

Um ponto decisivo surgiu quando pesquisadores começaram a separar quantidade muscular de força. No Health ABC Study, a força, mas não a massa muscular isoladamente, apresentou associação independente mais consistente com mortalidade. Newman et al., 2006

Outro estudo mostrou que a força diminui aproximadamente três vezes mais rapidamente que a massa magra durante o envelhecimento. Além disso, manter ou aumentar massa magra não necessariamente impediu a perda de força. Goodpaster et al., 2006

No estudo PURE, com aproximadamente 140 mil participantes, menor força de preensão foi associada a maior mortalidade e maior risco cardiovascular. Leong et al., 2015

Isso modificou a interpretação contemporânea:

Não é apenas “quanto músculo” a pessoa possui, mas quanto desse músculo consegue ser recrutado, produzir força e sustentar funções importantes.

Qual seria a formulação cientificamente mais adequada?

Em vez de dizer:

“Quanto mais massa muscular, melhor a pessoa enfrentará qualquer doença.”

Seria mais preciso afirmar:

Baixa massa muscular, especialmente quando acompanhada de baixa força e desempenho físico, identifica indivíduos com menor reserva metabólica e funcional e está associada a piores desfechos diante de doenças, cirurgias e hospitalizações.

E ainda:

É biologicamente plausível que maior reserva muscular contribua para suportar períodos catabólicos, mas ainda não está demonstrado que maximizar hipertrofia, independentemente da força, aptidão cardiorrespiratória e estado geral de saúde, produza proporcionalmente maior proteção clínica.

Portanto, a literatura sustenta muito bem que ter pouca musculatura e pouca força é desfavorável. Ela sustenta de maneira menos segura a afirmação inversa de que “quanto mais músculo, melhor”, sem um limite ou independentemente da função. A melhor ideia não é “musculatura máxima”, mas reserva musculofuncional adequada. Por tanto, a melhor afirmação é: “o importante é a força muscular, se tiver massa muscular melhor”!

Att. Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do movimento humano.

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Cuthbertson DP. The disturbance of metabolism produced by bony and non-bony injury, with notes on certain abnormal conditions of bone. Biochem J. 1930;24(4):1244–1263. PubMed

Swick RW, Benevenga NJ. Labile protein reserves and protein turnover. J Dairy Sci. 1977;60(4):505–515. PubMed

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Goodpaster BH, Park SW, Harris TB, et al. The loss of skeletal muscle strength, mass, and quality in older adults: the Health, Aging and Body Composition Study. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 2006;61(10):1059–1064. doi:10.1093/gerona/61.10.1059. PubMed

Leong DP, Teo KK, Rangarajan S, et al. Prognostic value of grip strength: findings from the Prospective Urban Rural Epidemiology—PURE—study. Lancet. 2015;386(9990):266–273. doi:10.1016/S0140-6736(14)62000-6. PubMed

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Pedersen BK, Febbraio MA. Muscle as an endocrine organ: focus on muscle-derived interleukin-6. Physiol Rev. 2008;88(4):1379–1406. doi:10.1152/physrev.90100.2007. PubMed

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