Durante grande parte da primeira metade do século XX, o fortalecimento de músculos lesionados ou atrofiados era conduzido com extrema cautela. A recomendação predominante consistia na utilização de movimentos leves, muitas repetições e cargas reduzidas. A aplicação de resistências elevadas em pacientes ortopédicos era frequentemente considerada desnecessária ou potencialmente perigosa.
Em 1945, Thomas L. DeLorme confrontou essa lógica ao publicar o artigo Restoration of Muscle Power by Heavy-Resistance Exercises, no Journal of Bone and Joint Surgery. Seu trabalho não inventou o levantamento de pesos nem descobriu que cargas progressivamente maiores poderiam aumentar a força — atletas e levantadores já utilizavam estratégias semelhantes havia décadas. A verdadeira contribuição de DeLorme foi outra: transformar uma prática empírica em uma metodologia clínica sistematizada, mensurável e ajustável.
Essa mudança ajudou a estabelecer um princípio que atualmente parece elementar: se o organismo se adapta a determinado estímulo, o treinamento precisa ser reajustado para continuar produzindo adaptação.
Mas a história frequentemente contada sobre DeLorme contém algumas simplificações. O famoso protocolo de três séries de dez repetições, com 50%, 75% e 100% de 10RM, não apareceu exatamente como o conhecemos no artigo de 1945. Ele foi refinado e publicado posteriormente, especialmente no trabalho de DeLorme e Watkins de 1948.
Compreender essa distinção é importante não apenas para preservar a precisão histórica, mas também para perceber como o conhecimento científico realmente evolui: por observações iniciais, aplicação prática, revisão das metodologias e refinamentos sucessivos.
O contexto: reabilitar soldados em um período de guerra
DeLorme era médico do Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, hospitais militares recebiam grande número de soldados com fraturas, cirurgias, imobilizações prolongadas e consequente atrofia muscular.
Mesmo depois de a lesão estar consolidada, muitos pacientes permaneciam hospitalizados porque ainda não haviam recuperado força suficiente para caminhar, sustentar o próprio peso ou retornar às atividades militares e civis. O problema, portanto, não era somente reparar o tecido lesionado. Era recuperar a função.
As abordagens tradicionais de exercício terapêutico, baseadas principalmente em resistências leves e grande número de repetições, nem sempre restauravam a força com a velocidade necessária. DeLorme percebeu que músculos enfraquecidos talvez não precisassem apenas de movimento, mas de um estímulo suficientemente intenso para provocar adaptação.
Essa hipótese contrariava uma ideia cultural e médica bastante difundida: a de que o treinamento com pesos produziria rigidez, lentidão, prejuízo cardíaco ou agravamento das lesões. O próprio termo “levantamento de peso” carregava uma conotação negativa em parte da comunidade clínica.
DeLorme propôs que cargas relativamente altas poderiam ser aplicadas de maneira segura quando fossem individualizadas, progressivas e compatíveis com a capacidade do paciente.
O que DeLorme fez em 1945?
No artigo de 1945, DeLorme descreveu a utilização de exercícios de alta resistência na recuperação de militares com lesões ortopédicas, especialmente em situações envolvendo enfraquecimento do quadríceps após lesões e imobilizações do membro inferior.
Uma de suas ferramentas ficou conhecida como “bota de DeLorme”: um dispositivo que permitia fixar pesos ao pé e aplicar resistência progressiva durante a extensão do joelho. Embora simples, o equipamento oferecia algo decisivo para a época: a possibilidade de quantificar a carga aplicada ao músculo.
A metodologia inicial utilizava várias séries de dez repetições, começando com resistências menores e aumentando gradualmente até alcançar uma carga próxima da máxima que o paciente conseguia movimentar dez vezes. Essa carga seria posteriormente consolidada no conceito de repetição máxima, especialmente a carga de dez repetições máximas, ou 10RM.
Portanto, é historicamente impreciso afirmar que o artigo de 1945 já apresentou exatamente o protocolo:
- 10 repetições com 50% de 10RM;
- 10 repetições com 75% de 10RM;
- 10 repetições com 100% de 10RM.
A formulação de três séries progressivamente mais pesadas foi desenvolvida posteriormente. A revisão histórica de Todd, Shurley e Todd mostra que, em 1948, DeLorme e Arthur Watkins refinaram a metodologia, reduziram o número de séries e adotaram a estrutura de três séries de dez repetições. Foi também nesse período que a expressão Progressive Resistance Exercise — exercício de resistência progressiva — passou a ser utilizada de maneira mais formal. A revisão histórica pode ser consultada no PubMed.
Como surgiu o famoso protocolo de três séries de dez?
Na versão refinada da metodologia, o paciente realizava:
- Uma série de dez repetições com 50% da carga de 10RM;
- Uma série de dez repetições com 75% da carga de 10RM;
- Uma série de dez repetições com 100% da carga de 10RM.
As duas primeiras séries funcionavam como preparação progressiva. A terceira representava o esforço principal, realizado com a carga que, em teoria, permitia completar aproximadamente dez repetições antes de ocorrer incapacidade momentânea de continuar com a técnica prescrita.
Quando o paciente conseguia executar mais repetições ou demonstrava que aquela carga já não representava sua verdadeira 10RM, a resistência era aumentada. Desse modo, a prescrição não permanecia fixa: ela acompanhava a evolução da capacidade muscular.
A publicação Technics of Progressive Resistance Exercise, de 1948, tornou-se uma referência para a sistematização desse processo. O registro do artigo está disponível no PubMed.
Posteriormente, Watkins explicou que o objetivo primário do exercício resistido progressivo era aumentar a força e que, para isso, o músculo deveria trabalhar contra uma resistência capaz de exigir esforço voluntário próximo do máximo. À medida que a força aumentasse, a resistência também precisaria ser elevada. Essa formulação foi publicada no JAMA em 1952.
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A principal contribuição não foi o “3 × 10”
O legado de DeLorme costuma ser reduzido à prescrição de três séries de dez repetições. Essa interpretação é limitada.
O aspecto verdadeiramente revolucionário não foi estabelecer que todos deveriam realizar três séries, nem determinar que dez seria um número universalmente superior de repetições. O avanço estava nos princípios que sustentavam a metodologia.
1. A carga deveria ser individualizada
A resistência era definida em relação à capacidade do próprio paciente. Utilizar a 10RM significava abandonar, pelo menos parcialmente, prescrições baseadas apenas em pesos fixos ou em impressões subjetivas.
Dois pacientes poderiam realizar o mesmo exercício com cargas diferentes porque apresentavam capacidades diferentes. Isso parece óbvio atualmente, mas representou um importante passo na direção de uma prescrição quantitativa.
2. O estímulo precisava ser suficientemente intenso
DeLorme compreendeu que movimentar um membro não era o mesmo que estimular adequadamente sua recuperação de força. Para produzir adaptação, a resistência deveria representar um desafio significativo.
Esse raciocínio antecipa o conceito contemporâneo de sobrecarga: o estímulo precisa superar, em alguma medida, aquilo a que o organismo já está adaptado.
3. A carga deveria progredir
Uma carga capaz de produzir adaptação no início do tratamento poderia deixar de ser desafiadora algumas semanas depois. A progressão não era um detalhe do programa; era parte de sua lógica central.
Quando a capacidade aumentava, o treinamento era recalibrado. Esse princípio permanece presente em praticamente todos os modelos modernos de treinamento de força.
4. A força passou a ser tratada como uma capacidade mensurável
A metodologia ajudou a aproximar o treinamento com pesos da prática clínica e científica. Carga, repetições e evolução passaram a ser registradas, comparadas e utilizadas para orientar decisões.
A recuperação deixou de ser avaliada somente pela percepção de que o paciente “estava melhor”. Tornou-se possível observar se ele movimentava mais carga, completava mais repetições e recuperava maior capacidade funcional.
Por que o trabalho foi tão influente?
A força da metodologia não estava apenas nos resultados observados, mas também em sua aplicabilidade. O protocolo era relativamente simples, exigia equipamentos pouco sofisticados e podia ser ajustado conforme a evolução do paciente.
Nos anos seguintes, DeLorme e colaboradores aplicaram o exercício resistido progressivo em diferentes populações, incluindo pacientes com poliomielite, adolescentes e indivíduos em recuperação de fraturas e cirurgias. A metodologia ganhou espaço em hospitais militares e civis e ajudou a modificar a percepção médica sobre o treinamento com pesos.
Em 1951, DeLorme e Watkins publicaram o livro Progressive Resistance Exercise: Technic and Medical Application. A obra contribuiu para consolidar a utilização da resistência progressiva na reabilitação e ampliar seu alcance para além do ambiente militar.
A importância histórica de DeLorme, portanto, não decorre de ter criado uma combinação “perfeita” entre séries e repetições. Seu mérito foi demonstrar que a força poderia ser recuperada por meio de um processo planejado, quantificado e progressivo.
O estudo deve ser interpretado pelos padrões atuais?
O artigo de 1945 é um marco histórico, mas não deve ser confundido com um ensaio clínico contemporâneo.
Naquela época, não eram habituais elementos que hoje consideramos essenciais, como:
- randomização;
- grupo-controle bem definido;
- cálculo prévio do tamanho amostral;
- cegamento dos avaliadores;
- registro prospectivo do protocolo;
- descrição estatística completa;
- avaliação sistemática de eventos adversos;
- relato conforme diretrizes como CONSORT.
Isso significa que o trabalho não permite estimar a eficácia da metodologia com o mesmo grau de confiança de um ensaio clínico moderno. Parte das melhoras poderia envolver recuperação natural, familiarização com o teste, aumento da confiança para produzir força, adaptações neurais iniciais ou diferenças entre os pacientes.
Os próprios autores reconheciam que a medida inicial de 10RM poderia subestimar a capacidade real. Medo, desconforto, dificuldade de realizar esforço máximo e falta de familiarização influenciavam o desempenho. A elevação rápida da força nas primeiras semanas, portanto, não deveria ser interpretada exclusivamente como hipertrofia.
Essa ressalva é especialmente importante porque estudos antigos frequentemente utilizavam explicações fisiológicas mais simples do que aquelas aceitas atualmente. O aumento de força resulta de uma combinação de adaptações neurais, morfológicas, técnicas e psicológicas. Nem toda melhora inicial representa aumento proporcional da massa muscular.
Reconhecer essas limitações não diminui a importância de DeLorme. Apenas impede que um estudo histórico seja avaliado ou utilizado como se fosse uma demonstração definitiva pelos critérios científicos atuais.
A metodologia de DeLorme ainda é superior?
Não existem evidências robustas de que a sequência 50%–75%–100% de 10RM seja universalmente superior a outras formas de organização do treinamento.
Em 2003, Fish e colaboradores compararam a metodologia de DeLorme com a metodologia Oxford, no qual a ordem das cargas era invertida: 100%, 75% e 50% de 10RM. Após nove semanas de treinamento, os dois protocolos aumentaram a força, sem diferença estatisticamente significativa entre eles. O estudo foi publicado no American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation.
Isso reforça uma distinção fundamental: o princípio da resistência progressiva permanece válido, mas a organização específica proposta por DeLorme é apenas uma das maneiras possíveis de aplicá-lo.
Atualmente, a progressão pode ocorrer mediante aumento da carga, das repetições, do número de séries, da frequência semanal, da amplitude de movimento ou da complexidade da tarefa. Também é possível ajustar o treinamento por repetições em reserva, velocidade de execução, percepção de esforço e desempenho observado ao longo das sessões.
O que DeLorme ainda ensina ao treinador moderno?
O trabalho de DeLorme continua oferecendo lições importantes.
A primeira é que proteger excessivamente um tecido ou músculo enfraquecido pode retardar a recuperação de sua capacidade. Cautela clínica não deve ser confundida com ausência de estímulo.
A segunda é que o treinamento precisa ser individualizado. Uma carga pode ser leve para uma pessoa, adequada para outra e excessiva para uma terceira. O valor absoluto do peso diz pouco quando não é relacionado à capacidade individual.
A terceira é que programas estáticos tendem a perder eficiência. Se o aluno ou paciente evoluiu, a prescrição também precisa evoluir.
A quarta é que metodologias são ferramentas, não leis universais. O protocolo de três séries de dez pode funcionar, mas não representa uma dose obrigatória nem a única forma cientificamente aceitável de desenvolver força.
Por fim, DeLorme mostra como uma prática pode conquistar legitimidade científica: observar um problema real, propor uma intervenção mensurável, acompanhar seus resultados e revisar a metodologia à medida que novas informações aparecem.
Conclusão
O artigo de Thomas DeLorme publicado em 1945 merece ocupar um lugar central na história do treinamento de força. Seu impacto não se explica pela descoberta de uma combinação mágica de séries e repetições, mas pela transformação do exercício com pesos em uma intervenção clínica sistematizada.
DeLorme ajudou a substituir a ideia de que músculos debilitados deveriam ser sempre tratados com estímulos mínimos por uma visão mais funcional: quando adequadamente selecionada e progressivamente ajustada, uma resistência relativamente elevada pode restaurar força e capacidade.
Seu trabalho também deixou uma herança conceitual que atravessa a reabilitação, a preparação física e o treinamento para hipertrofia: medir a capacidade, aplicar uma sobrecarga compatível, acompanhar a resposta e reajustar o estímulo.
O protocolo original pertence à história. O princípio da progressão continua pertencendo à prática.
Dr. Andre Lopes – PhD em Ciências do Movimento Humano
Referências principais
- DeLorme TL. Restoration of Muscle Power by Heavy-Resistance Exercises. J Bone Joint Surg. 1945;27:645–667. Consultar o registro do artigo.
- DeLorme TL, Watkins AL. Technics of Progressive Resistance Exercise. Arch Phys Med Rehabil. 1948;29(5):263–273. PubMed.
- DeLorme TL, Watkins AL. Progressive Resistance Exercise: Technic and Medical Application. New York: Appleton-Century-Crofts; 1951.
- Watkins AL. Practical Applications of Progressive Resistance Exercises. JAMA. 1952;148(6):443–446. doi:10.1001/jama.1952.02930060025008.
- Todd JS, Shurley JP, Todd TC. Thomas L. DeLorme and the Science of Progressive Resistance Exercise. J Strength Cond Res. 2012;26(11):2913–2923. PubMed.
- Fish DE, Krabak BJ, Johnson-Greene D, deLateur BJ. Optimal Resistance Training: Comparison of DeLorme with Oxford Techniques. Am J Phys Med Rehabil. 2003;82(12):903–909. doi:10.1097/01.PHM.0000098505.57264.DB.



