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O pai dos testes de salto vertical?

Poucos pesquisadores influenciaram tanto a avaliação física esportiva quanto o fisiologista italiano Carmelo Bosco.

Durante as décadas de 1970 e 1980, Bosco desenvolveu uma série de testes capazes de avaliar força explosiva, potência muscular, utilização do ciclo alongamento-encurtamento (Stretch-Shortening Cycle – SSC) e fadiga neuromuscular utilizando apenas plataformas de contato e medidas extremamente simples.

Até aquele momento, medir potência mecânica era caro, demorado e praticamente restrito a grandes laboratórios.

Bosco democratizou essa avaliação.

Subitamente qualquer equipe esportiva podia estimar potência muscular utilizando apenas o tempo de voo de um salto vertical.

Foi uma verdadeira revolução.

Mas, como acontece frequentemente na ciência, uma ferramenta extremamente útil começou a ser utilizada para responder perguntas que ela nunca havia sido projetada para responder.

A genialidade de Bosco

A grande inovação foi perceber que o tempo de voo permitia estimar a altura do salto.

A partir da equação clássica da mecânica:

era possível estimar a velocidade de saída do centro de massa.

Posteriormente, essa velocidade passou a ser utilizada em diferentes modelos para estimar potência mecânica.

Na época, isso representava um enorme avanço.

Até então praticamente ninguém conseguia estimar potência em campo.

O problema começou depois.

Com o passar dos anos surgiu uma interpretação extremamente simplificada.

Os pesquisadores passaram a assumir que:

Maior potência estimada = indivíduo mais potente.

Mais tarde, essa interpretação evoluiu para algo ainda mais problemático:

A potência estimada pelas equações de Bosco passou a ser tratada como se fosse uma medida direta da potência muscular.

É aqui que surgem as limitações.

Primeira limitação: o corpo não é um ponto material

Grande parte das equações clássicas considera apenas o deslocamento vertical do centro de massa.

Entretanto, durante um salto ocorrem simultaneamente:

  • movimento do quadril;
  • movimento dos braços;
  • rotação do tronco;
  • flexão dos joelhos;
  • movimentação dos pés;
  • alterações no posicionamento do centro de massa.

Ou seja,

o corpo humano não se comporta como um único bloco rígido.

As equações simplificam um sistema extremamente complexo.

Essa simplificação funciona muito bem para estimar a altura do salto.

Mas torna-se limitada quando utilizada para estimar potência muscular absoluta.

Segunda limitação: aceleração constante

Outro pressuposto importante é assumir um comportamento mecânico relativamente uniforme durante a fase propulsiva.

Na prática isso não ocorre.

Durante o impulso:

  • a força varia continuamente;
  • a aceleração muda a cada instante;
  • o braço de momento das articulações se altera;
  • a velocidade angular das articulações muda constantemente.

Portanto, a produção instantânea de potência é altamente variável.

As equações reduzem todo esse processo a um único valor médio.

Terceira limitação: eficiência mecânica

Talvez esta seja a limitação mais interessante.

Dois atletas podem apresentar exatamente a mesma altura de salto.

Entretanto, um deles pode produzir muito mais trabalho interno.

Por quê?

Porque:

  • possui segmentos corporais maiores;
  • apresenta diferentes estratégias motoras;
  • utiliza mais movimento de tronco;
  • possui diferente rigidez musculotendínea;
  • apresenta distinta coordenação intermuscular.

Em outras palavras,

a mesma altura não significa necessariamente a mesma produção mecânica interna.

Quarta limitação: potência externa não é potência muscular

Grande parte das equações estima apenas:

potência externa.

Ou seja,

o trabalho realizado para deslocar o centro de massa.

Entretanto, o músculo também produz energia para:

  • acelerar segmentos;
  • estabilizar articulações;
  • vencer forças internas;
  • controlar movimentos excêntricos.

Grande parte desse trabalho não aparece nas equações clássicas.

Quinta limitação: efeito da massa corporal

Diversas equações incorporam a massa corporal.

Por exemplo, dois atletas saltam exatamente 40 cm.

Um pesa:

60 kg.

Outro:

110 kg.

O atleta mais pesado apresentará potência estimada muito maior.

Isso significa necessariamente que seus músculos produzem maior potência específica?

Nem sempre.

Parte dessa diferença decorre simplesmente da própria equação.

Sexta limitação: estratégia de salto

Imagine dois atletas.

Atleta A salta rapidamente.

Pouca flexão.

Grande rigidez.

Atleta B realiza grande agachamento.

Maior tempo de impulso. Mesmo salto final. Ambos podem atingir exatamente a mesma altura.

Mas produziram curvas força-tempo completamente diferentes.

As equações tradicionais não conseguem distinguir essas estratégias.

Quando plataformas de força começaram a mostrar a realidade

A partir dos anos 2000, plataformas de força de alta frequência tornaram-se muito mais acessíveis.

Agora era possível medir diretamente:

  • força;
  • velocidade;
  • impulso;
  • potência instantânea;
  • taxa de desenvolvimento de força;
  • perfil força-velocidade;
  • impulso concêntrico;
  • impulso excêntrico.

Os pesquisadores perceberam algo interessante.

Duas pessoas com a mesma potência estimada frequentemente apresentavam perfis mecânicos completamente diferentes.

Isso mudou a forma de interpretar os testes.

Bosco nunca afirmou isso

É importante destacar um aspecto histórico.

Bosco jamais afirmou que suas equações substituíam análises biomecânicas completas.

Seu objetivo era criar ferramentas práticas para avaliação de campo.

A extrapolação ocorreu posteriormente.

Durante muitos anos passou-se a considerar que:

altura do salto

potência estimada

potência muscular verdadeira.

Essa relação é muito mais complexa do que parece.

O que a literatura atual recomenda?

Hoje existe consenso de que:

As equações de Bosco continuam extremamente úteis.

Entretanto, elas devem ser interpretadas como: estimativas indiretas da capacidade explosiva, e não como medidas diretas da potência muscular produzida durante o salto.

Quando o objetivo é compreender detalhadamente a mecânica do movimento, métodos instrumentados, como plataformas de força e sistemas tridimensionais de análise cinemática, oferecem informações significativamente mais precisas.

A grande lição metodológica

A história de Bosco ensina um princípio que vale para praticamente toda a ciência.

Uma equação pode estimar muito bem determinada variável.

Isso não significa que ela seja capaz de representar todo o fenômeno biológico.

Durante muitos anos confundimos uma estimativa matemática com uma medida fisiológica direta.

Esse tipo de extrapolação é conhecido em metodologia científica como erro de validade externa e de construto: um modelo desenvolvido para um contexto específico passa a ser utilizado em situações para as quais não foi originalmente validado.

Bosco não estava errado.

Pelo contrário.

Seu trabalho transformou a avaliação funcional no esporte.

O equívoco ocorreu quando suas equações passaram a ser tratadas como se fossem uma descrição completa da potência muscular humana, ignorando a complexidade da biomecânica do salto.

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Att. Dr. Andre Lopes

PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS

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Referências

Bosco C, Luhtanen P, Komi PV. A simple method for measurement of mechanical power in jumping. European Journal of Applied Physiology. 1983;50:273–282.

Bosco C. Strength Assessment with the Bosco’s Test. Italian Society of Sport Science, 1999.

Harman EA, Rosenstein MT, Frykman PN, Rosenstein RM, Kraemer WJ. Estimation of human power output from vertical jump. Journal of Applied Sport Science Research. 1991;5(3):116–120.

Markovic G, Jaric S. Is vertical jump height a body size-independent measure of muscle power? Journal of Sports Sciences. 2007;25(12):1355–1363.

Cormie P, McBride JM, McCaulley GO. Power-time, force-time, and velocity-time curve analysis during the jump squat: impact of load. Journal of Applied Biomechanics. 2008;24:112–120.

Linthorne NP. Analysis of standing vertical jumps using a force platform. American Journal of Physics. 2001;69(11):1198–1204.

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