Blog meu treino certo imagem 12 (1)

Nairóbi 2029: levar o Mundial de Atletismo para a África seria histórico — mas a decisão precisa ir além do simbolismo

A candidatura de Nairóbi para sediar o Campeonato Mundial de Atletismo de 2029 representa muito mais do que uma disputa entre cidades por um grande evento esportivo. Caso a capital do Quênia seja escolhida, será a primeira vez que o principal campeonato mundial da modalidade será realizado no continente africano.

A candidatura foi oficialmente apresentada e integra o processo aberto pela World Athletics para definir as sedes dos Mundiais de 2029 e 2031. A decisão está prevista para setembro de 2026.

O simbolismo é evidente. A África ocupa posição central na história do atletismo, particularmente nas provas de meio-fundo e fundo, mas nunca recebeu o Mundial adulto de pista e campo.

Entretanto, justamente por sua importância, a candidatura de Nairóbi merece uma análise que vá além da narrativa de que “a África finalmente merece um Mundial”.

Para profissionais do esporte, existem questões esportivas, fisiológicas, estruturais, econômicas e políticas que tornam essa candidatura especialmente interessante.

Uma potência esportiva que nunca recebeu o principal evento da modalidade

Existe uma aparente contradição na geografia do atletismo mundial.

Países africanos estão entre os grandes protagonistas competitivos da modalidade há décadas, enquanto a organização dos principais eventos permaneceu concentrada em outras regiões.

O próprio calendário recente ilustra essa distribuição. Tóquio recebeu o Mundial de 2025 e Pequim receberá a edição de 2027. Para 2029, a World Athletics abriu um novo processo internacional de candidatura.

Nesse contexto, levar o Mundial ao Quênia teria enorme significado institucional.

Não se trataria apenas de reconhecer a contribuição histórica dos atletas africanos. Poderia representar uma tentativa concreta de ampliar geograficamente o mercado, a audiência, a formação esportiva e a capacidade de organização de grandes competições no continente.

Mas existe uma diferença fundamental entre possuir uma extraordinária tradição esportiva e possuir capacidade operacional para organizar um campeonato dessa dimensão.

E é exatamente aí que a análise precisa se tornar mais criteriosa.

O primeiro desafio é estrutural

Um Campeonato Mundial de Atletismo exige uma estrutura muito mais complexa do que um estádio adequado.

O guia oficial de candidatura da World Athletics estabelece, entre outros requisitos, estádio principal com capacidade mínima para 30 mil espectadores e certificação Classe 1, pista de aquecimento adequada, instalações específicas para lançamentos, áreas de treinamento, circuitos homologados para provas de rua, hotéis para atletas, dirigentes, imprensa e parceiros, além de infraestrutura logística para transportar pessoas e equipamentos provenientes de diferentes partes do mundo.

Isso muda completamente a discussão.

A pergunta não deve ser apenas:

“Existe um estádio capaz de receber o Mundial?”

A pergunta correta é:

“Existe um ecossistema capaz de receber um Campeonato Mundial?”

São problemas diferentes.

Uma competição desse porte envolve atletas, treinadores, equipes multidisciplinares, dirigentes, jornalistas, equipes de transmissão, fornecedores, patrocinadores e espectadores internacionais.

Além disso, o Congresso da World Athletics ocorre associado ao Campeonato Mundial, reunindo representantes das federações filiadas à entidade. Portanto, a cidade-sede precisa funcionar simultaneamente como centro esportivo, administrativo, logístico e midiático.

A candidatura de Nairóbi, portanto, será também um teste da capacidade de expansão do sistema esportivo internacional para além dos centros tradicionalmente escolhidos para megaeventos.

Existe ainda uma questão fascinante: a altitude

Do ponto de vista das Ciências do Esporte, provavelmente este seja o aspecto mais interessante da candidatura.

Nairóbi encontra-se a aproximadamente 1.800 metros de altitude.

Isso significa que um eventual Mundial realizado na cidade introduziria uma variável ambiental relevante sobre o desempenho.

Em altitude, a redução da pressão parcial de oxigênio modifica as condições fisiológicas enfrentadas pelos atletas.

E os efeitos não são iguais para todas as provas.

Nas modalidades predominantemente aeróbias, especialmente provas mais longas, a disponibilidade reduzida de oxigênio pode comprometer a capacidade de sustentar determinadas intensidades.

Já em esforços muito curtos e explosivos, a situação é diferente.

A menor densidade do ar pode reduzir a resistência aerodinâmica, potencialmente favorecendo determinadas performances em provas de velocidade e saltos horizontais, embora o resultado real dependa de várias outras condições.

Isso criaria algo extremamente interessante:

o ambiente deixaria de ser apenas o cenário da competição e passaria a integrar de maneira ainda mais evidente a própria dinâmica do desempenho.

A preparação teria que mudar

Um Mundial em Nairóbi também teria implicações importantes para treinadores, fisiologistas e departamentos de desempenho.

Não seria razoável simplesmente transportar para o Quênia a mesma estratégia utilizada em uma competição realizada ao nível do mar.

Para algumas modalidades, o planejamento pré-competitivo precisaria considerar cuidadosamente aclimatação, momento de chegada, recuperação, respostas individuais à altitude, controle da carga e estratégias específicas de preparação.

Isso também poderia gerar diferenças entre atletas.

Competidores habituados a treinar em altitude poderiam responder de maneira diferente daqueles que realizam praticamente toda sua preparação próxima ao nível do mar.

É importante evitar uma interpretação simplista: isso não significa automaticamente que atletas quenianos teriam vantagem em todas as provas.

Significa que a variável ambiental precisaria entrar de maneira explícita no planejamento da preparação.

Para a ciência do esporte, seria um enorme laboratório natural.

Mas um Mundial não pode ser justificado apenas pela ciência ou pelo simbolismo

Existe outro aspecto que precisa ser discutido.

Megaeventos esportivos frequentemente são apresentados a partir de conceitos como “legado”, “desenvolvimento”, “turismo” e “visibilidade internacional”.

Essas possibilidades existem.

Mas não são resultados automáticos.

A literatura sobre grandes eventos esportivos mostra que projetos dessa magnitude podem enfrentar custos superiores aos inicialmente projetados e que benefícios prometidos durante candidaturas nem sempre se materializam na proporção esperada.

Embora Jogos Olímpicos e Campeonato Mundial de Atletismo sejam eventos de escalas financeiras diferentes, a experiência dos megaeventos oferece uma advertência metodológica importante: projeções de impacto econômico devem ser avaliadas criticamente, especialmente quando grandes investimentos públicos em infraestrutura estão envolvidos.

Portanto, uma candidatura responsável precisa responder a uma pergunta fundamental:

o que permanecerá para o esporte queniano depois que o último atleta cruzar a linha de chegada?

O verdadeiro legado não é o estádio

Esse talvez seja o ponto mais importante.

O legado de um Campeonato Mundial não deveria ser medido apenas por estruturas construídas.

Um legado esportivo consistente deveria envolver formação de treinadores, desenvolvimento de profissionais das Ciências do Esporte, qualificação de árbitros, fortalecimento de centros de treinamento, desenvolvimento de categorias de base, melhoria dos sistemas de detecção de talentos e ampliação do acesso da população ao esporte.

Também deveria deixar conhecimento.

Organizar um Mundial significa desenvolver competências em gestão esportiva, tecnologia, fisiologia, medicina esportiva, análise de desempenho, comunicação e organização de competições.

Se esse conhecimento permanecer no país, o evento pode produzir efeitos muito além das semanas de competição.

Se não permanecer, existe o risco de o “legado” tornar-se apenas uma palavra utilizada para justificar investimentos.

Existe também uma oportunidade para a própria World Athletics

A discussão não envolve apenas o Quênia.

Envolve o modelo de internacionalização do atletismo.

Se uma modalidade pretende ser verdadeiramente global, seus principais eventos precisam, em algum momento, alcançar regiões que historicamente contribuíram para sua construção.

Nesse sentido, uma edição africana do Mundial poderia representar um movimento importante.

Mas existe uma condição:

descentralizar não significa reduzir critérios.

Talvez signifique justamente o contrário.

Para que uma primeira edição africana seja um marco positivo, ela precisa demonstrar elevada capacidade organizacional, segurança operacional, infraestrutura esportiva adequada e planejamento financeiro sustentável.

O sucesso de Nairóbi poderia abrir portas para outras cidades africanas.

Um fracasso poderia produzir o efeito oposto.

Nairóbi não está disputando apenas um campeonato

Esse é o ponto que torna a candidatura tão relevante.

Nairóbi está disputando a possibilidade de modificar a geografia de um dos maiores eventos esportivos do planeta.

O Quênia possui tradição atlética suficiente para tornar a candidatura simbolicamente poderosa. Mas tradição esportiva, por si só, não organiza um Campeonato Mundial.

A decisão da World Athletics precisará equilibrar pelo menos quatro dimensões:

representatividade global, capacidade operacional, sustentabilidade econômica e qualidade esportiva.

E existe ainda uma quinta dimensão particularmente interessante para profissionais do esporte:

as condições ambientais de competição.

Um Mundial disputado a aproximadamente 1.800 metros de altitude transformaria Nairóbi em um enorme laboratório para compreender como atletas de diferentes especialidades respondem ao mesmo ambiente competitivo.

Talvez por isso a candidatura seja tão interessante.

A pergunta não é simplesmente se a África merece receber um Campeonato Mundial de Atletismo.

Depois de décadas de protagonismo africano dentro das pistas, essa discussão parece pequena.

A questão realmente importante é outra:

Nairóbi consegue transformar uma oportunidade histórica em um projeto esportivo capaz de deixar um legado igualmente histórico?

Se conseguir, o Mundial de 2029 poderá representar muito mais do que uma nova cidade no calendário.

Poderá representar uma mudança na própria geografia do atletismo mundial.

Dr. Andre Lopes – PhD em ciências do movimento humano – me segue @dr.andrelopes

Rolar para cima